Disneylândias da Europa

Por André Catelli

Uma reprodução fiel de um quadro renascentista é sempre mais admirável e valiosa do que uma plotagem em tecido da fotografia da mesma obra. Pinceladas, pequenos empastes e veladuras poderão ser examinados de perto, pela visão e tato, com a certeza de que se está no lugar que o copista ocupava enquanto reproduzia a obra. É uma cópia, sim, mas exclusiva. Na impressão apreciamos as formas, tons e cores, sabendo que o valor intrínseco, físico, é pequeno: os custos dos cartuchos de tinta, do substrato e do chassis, provavelmente. Em ambos os casos, contudo, a genialidade é captada como que por um espelho, através do qual se divisa a pintura autêntica.

Quando o original se perde, é destruído, ou tem sua existência inferida pela reprodução, como algumas estátuas romanas esculpidas a partir de gregas, estas nunca admiradas senão pela Antiguidade, a cópia tem seu valor catapultado para as alturas. Ainda mais neste caso, em que muitas cópias são contemporâneas às originais e o mármore empregado, italiano, é superior, o que explica vermos mais narizes e dedos nas estátuas latinas de vinte, vinte e cinco séculos atrás, do que nas gregas de mesma idade. A cópia, nesses casos, passa a ser virtualmente a original. Grandes templos de madeira do Japão são réplicas de construções de mais de mil anos atrás, às vezes em escala reduzida, como o Todai-ji em Nara, que visitei recentemente. O templo budista é do ano 743 e foi destruído várias vezes por incêndios e terremotos. O edifício atual é do século XVIII e 30% menor do que o primeiro, erigido pelo Imperador Shomu. Ainda assim, se não me engano, é a maior construção em madeira do mundo. Algumas catedrais medievais europeias, perante as quais turistas em êxtase imaginam artesãos de uma corporação de ofício a talhar, por várias gerações, seus contrafortes, arcobotantes, pináculos e nervuras da abóboda, são reproduções de poucas décadas atrás, erguidas em canteiros de obra modernos com tecnologia de ponta, por meio de guindastes, talhadeiras elétricas. São próteses de valiosos e únicos membros urbanos decepados em guerras ou terremotos. De igual modo, o copista hábil no óleo talvez opte por auxílio tecnológico para transpor as formas com precisão para a tela. Poderá imprimir a fotografia em tamanho natural, marcar os pontos de referência com absoluta exatidão, usar o conta-gotas do Photoshop para saber a dosagem aproximada de azuis, amarelos e vermelhos.

Não duvido que haja falsificações espalhadas por museus mundo afora. Serão tratadas como originais até serem desmascaradas. E há ainda obras de arte atuais em estilo antigo. Imaginemos uma tela de tema mitológico ao estilo de Ticiano, como se a alma deste tivesse possuído o pintor (não desastradamente como outros gênios incorporaram em Gasparetto), produzida em um loft de Nova Iorque ao som de Miles Davis, com o burburinho urbano vindo da janela, um copo de Jack Daniel's ao lado de bisnagas Winsor & Newton. Se tal obra fosse exposta no Louvre como um maneirista da escola de Ticiano, visitantes seriam arrebatados por aquela maravilha. Se vissem a mesma obra sendo criada no loft, talvez diriam com desdém: "mais um pastiche americano". Quem daria o Nobel de Literatura para o autor de um livro em grego antigo nos moldes da Odisseia? Embora sua habilidade devesse ser louvada, não poderíamos compará-lo a Homero, muito menos achar que suas obras têm importância equivalente.

castelo de Neuschwanstein, no sudoeste da Baviera, é considerado por muitos o castelo mais bonito da Europa. "É um dos edifícios mais fotografados da Alemanha e um dos mais populares destinos turísticos europeus, além de também ser considerado o 'cartão postal' daquele país", lemos na Wikipedia.

Esta arquitetura fantástica é a avó do castelinho da Bela Adormecida que vemos na Disneylândia. É um pseudo-românico enfeitado, construído com mil anos de atraso por um reizinho perdulário fanático por óperas de Wagner. Chega a ser compreensível, porque durante o romantismo houve um retorno ao medievo. Mas Neuschwanstein é meramente um belo cenário, tão mentiroso quanto qualquer cenário de ópera, embora possa ser visto de ângulos internos e externos. Sua estrutura é de concreto e suas vedações de alvenaria ordinária revestida com cascas de pedra. Esqueçamos da belísima paisagem em que Neuschwanstein está inserido. Ele só está lá porque ela é bela, não porque se necessitava de um sítio seguro, estratégico, a salvo de povos hostis munidos de tochas, catapultas e aríetes. Foi construído com técnicas modernas, nunca houve um rei a comer faisões em meio a vassalos, nunca uma corte se instalou por lá, os pesados portões nunca estiveram entre sitiados e invasores, a assimetria do conjunto de torres não se explica por acréscimos que reis fizeram através dos séculos, por demanda da necessidade, que é o ingrediente de espontaneidade dos castelos medievais; nunca arqueiros estiveram protegidos detrás de suas seteiras, que não existem para compor a estética de castelinho, adotada em motéis temáticos de beira de estrada e em réplicas sofríveis como o Chateau La Cave, em Caxias do Sul, minha cidade natal. O cartão postal alemão não traduz um estilo, uma época. Quem olha aquela arquitetura eclética não imagina que foi concluída nos estertores do século XIX.

Já me disseram que a obra de arte é uma contrafação do real, que toda arte é mentirosa. Mas arquitetura não é apenas obra de arte, como quer Niemeyer, não é mentira, como a pintura e a literatura ficcional. Não posso dizer que quatro paredes e um teto são uma imitação de uma caverna. Já a arquitetura pode ser imitada, claro. Neuschwanstein e quase tudo de Gramado são mentiras sim, ainda que o primeiro seja uma estonteante e Gramado seja uma, digamos, mentira bonitinha. O enxaimel não nasceu de uma imitação da natureza ou de um ideal estético. É uma verdade estrutural. Pilares, vigas e contraventamentos de madeira são expostos em seu estado natural, enquanto as vedações são pintadas de cores claras, amiúde. Levantarem uma casa de cimento, como fazem em Gramado, para depois pintarem “x”s marrons sobre pequenos ressaltos na argamassa, pendurarem placas em alemão com caracteres góticos e atrair turistas que quase sempre pensam estar em uma autêntica pequena Alemanha, é uma mentira bem diferente do que a que vemos em romances. É fato que existem alguns poucos enxaiméis originais em Gramado e em cidades de colonização alemã no Rio Grande do Sul, e é certo que turistas também vão para lá pelas belezas da Serra Gaúcha, pelo clima e também pelos parques temáticos, estes explicitamente "disneylandescos".

Outros dois exemplos de arquitetura fake europeia são o Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico, um autêntico gótico para inglês ver, concluído em 1870 mas com cara de séc. XIII, perto do qual há até uma estátua recente do rei cruzado Ricardo Coração de Leão, e a Sacré Coeur, um belíssimo templo neo-neo-românico-bizantino para francês ver, concluído em 1914 mas com cara de séc. IX.

Quem me dera que as imitações fossem sempre harmônicas e seguissem os cânones daquilo que pretendem copiar. Na maioria das vezes são pastiches grotescos, fora de proporção. Um exemplo é o Arco do Pontão, em Brasília. O número de vãos deve ser sempre ímpar, porque pelo centro desfilará, teoricamente, algum soberano em triunfo. Mas não. Roriz não foi um grande conquistador, e bem ao centro temos a guarita. Os arcos são abatidos, provavelmente por limitação do Código de Edificações, não há espaço para respirarem, porque mal há entablamento.

Por fim, não considero a arquitetura neoclássica, de princípios do séc. XIX, cópia do greco-romano. As ordens dórica, jônica, coríntia, compósita, toscana, a limitação estrutural da pedra ou do concreto não armado a condicionar modulações de colunas e a espessura das paredes, nunca deixaram de ser realidade, desde o helenismo até o classicismo a que me refiro. Mesmo na Renascença, a sociedade como um todo fazia um retorno ao greco-romano, no espírito, nas artes plásticas, no teatro, na filosofia. E não havia multidões de turistas gassetianos que justificassem meras "disneylândias".